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August 15 NOSSAS VIDAS EM 1985 – PARTE OITO
Era o dia do aniversário. Não, não havia na festa nenhum enfeite de refrigerante com o Gene Simmons, Paul Stanley ou coisa parecida. "Dane-se! Nem gosto mais do Kiss mesmo...". Eram mickeys, donalds, patetas. Nas paredes, nos balões, na mesa, nos chapeuzinhos. Por toda a parte os docinhos, os salgadinhos, os refrigerantes. Por toda parte, crianças. Crianças, crianças e mais crianças. Crianças vizinhas, crianças da família, menos as crianças da escola. Não, não suportaria pisar no colégio na segunda-feira caso aquelas crianças fossem à festa. Não suportaria! A mãe, sem entender muito bem o porquê, apenas atendeu o pedido da filha.
- Tudo bem. Sem as crianças da escola então...
Cinco anos. Completava cinco anos. "Meu Deus", pensava, "ainda falta tanto tempo... tanto tempo...".
O estranho acontecimento da semana anterior não saía da sua cabeça. Não havia nenhuma explicação plausível para aquilo! Aquela mulher, o carro, a casa. A sua casa! Teriam colocado alguma coisa no leite com nescau?
- Não é possível. Minha primeira experiência com drogas acontecerá somente daqui a... a...
Fez uma rápida conta nos dedos...
- ... daqui a doze anos!
Estava submersa em pensamentos quando viu um grande pacote estendido à sua frente:
- Tó. - Hein?
A tia pegou o pacote da mão da prima gordinha e fez as vezes da pequena roliça:
- É o presente da sua prima! Ela que escolheu!
E olhou para a redonda prole e, com uma piscadinha seguida de um sorriso do tipo "ela vai adorar", falou:
- Abre!
Com sua delicadeza peculiar, rasgou todo o papel de uma vez só e retirou de dentro dele uma linda...
- ... uma linda boneca-bebê. Veja só, que beleza. - Gostou?
Pensou: "Ah, claro! Tanto quanto eu gosto de uma prisão de ventre!", mas esboçando um sorriso amarelo, limitou-se a dizer:
- Claro.
Enquanto a tia e a prima voltavam para junto dos outros parentes, olhou com tristeza para a prima gordinha. "Ah sim. Sem dúvida ela escolheu essa boneca PARA ELA. Sem dúvida que ela faria melhor uso desse brinquedo. Mas daqui a vinte anos ela terá a sua própria boneca. E de carne e osso. Assim como suas próprias panelinhas, seu próprio fogãozinho... essa, vai brincar de casinha a vida inteira..."
Voltou a pensar naquele acontecimento da semana anterior. Sentada num pufe, apoiava os cotovelos nos joelhos, olhava para o nada e vez ou outra empurrava para cima o chapeuzinho de papel que insistia em cair sobre os seus olhos. Mais uma vez, teve os pensamentos interrompidos por um novo convidado que segurava um presente:
- Oi. - Oi. - Para você. - Ah, brigada.
Ia quase colocando o presente de lado quando se lembrou que devia abrí-lo antes.
- Ah, veja só! Uma... boneca! - É, e ela fala, olha só!
E apertando um dispositivo nas costas do brinquedo, ouviu-se um "Mamãe!".
- Valeu tio.
Ia tentar voltar aos seus pensamentos mas percebeu que seria inútil tentar isso. A todo momento mais e mais convidados chegavam, o barulho das crianças começava a tornar-se insuportável e alguém teve a maldita idéia de colocar uma música do Balão Mágico para tocar...
"Quando você chega na classe Nem sabe Quanta diferença que faz E às vezes Faço que não vejo e não ligo E finjo, ser distraída demais..."
Começou a sentir um leve nó na garganta...
"Quantas vezes te desenhei Mas não consigo Ver o teu sorriso no fim Te sigo Caminhando pelo recreio Quem sabe Você tropeça em mim..."
Os olhos começaram a marejar...
"Se enamo..."
- BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Caiu em prantos. A mãe logo apareceu, ainda segurando algumas garrafas de refrigerante Taí nas mãos:
- Filha, que foi? - Ti-ti-ti-ra e-e-e-essa mú-mú-música... p-p-por f-f-favor...
A mãe fez sinal para alguém e logo a música foi substituída por um super hit do Roberto Carlos:
"Todo dia quando eu pego a estrada Quase sempre é madrugada E o meu amor aumenta mais..."
Percebeu claramente a empolgação das tias quando a música começou. Ótimo. Pelo menos, Roberto Carlos não a fazia chorar.
Veja bem, Balão Mágico é jogo sujo, golpe baixo. Aquelas músicas faziam parte da infância dela. Parte de uma vida realmente infantil e inocente. Ouvir aquela canção lhe trouxe à tona o saudosismo misturado com sua condição vã e intrusa naquele tempo, naquela época. Não conseguiria ouvir aquilo sem se emocionar nem sentir raiva de si mesma.
Passado o choro, foi levada a contragosto para o meio da molecada. Era impressionante quão estúpidas eram aquelas brincadeiras. Os meninos simplesmente se divertiam batendo uns nos outros. As meninas, renegadas na brincadeira brutal, ficavam apenas olhando e vez ou outra, desferindo chutes ao vento, na inútil tentativa de acertar algum menino.
Mais uma vez os tios jogavam truco e ela sentiu uma imensa vontade de ir para lá. Por fim, decidiu andar pelo quintal a esmo, sem rumo. Ouviu sussurros. Foi olhar atrás do muro: a tia mais nova, aquela do livro e da palestra sobre Marx, ela mesma, lá, em amassos semi-obscenos com o namorado da faculdade.
Ficou observando a cena com o peculiar olhar cruel das crianças, reflexo de uma mente cuja arquitetura do mal já trabalhava arduamente pensando em como poderia tirar proveito daquilo. Deu um espirro.
- AAAAAAAAATCHÔU!
A tia virou-se, um tanto descabelada e ofegante, mão no peito devido ao susto. O rapaz, apenas olhava a menina, atônito. Enquanto arrumava a blusa e os cabelos, a tia disse, quase calmamente:
- Olha só quem está aqui... - Ô tia, o vô sabe que você tá aqui? - Aqui na sua casa? Claro que sabe! - Não. Não tô falando sobre você estar aqui em casa! Tô falando de você estar nessa pegação aí com o... o...
O rapaz se adiantou e disse:
- Clóvis. - Clóvis! Que belo nome hein! HAHAHAHAHAHA!!! Enfim Clóvis, você conhece o meu avô, sabe que ele é um tanto... como posso dizer... rígido, não?
O rapaz olhou com espanto para a menina, depois para a namorada como que perguntando "como ela consegue falar assim?" e novamente olhou para a menina, dizendo:
- É. Eu sei. - Pois então Clóvis. Pior que meu vô, são meus tios, irmãos da minha tia aí, sabia? - Não... quer dizer... sei, mas... é... onde você quer chegar com isso? - Eu quero chegar no seguinte: um maço de cigarros e uma garrafa de vodca. Pode ser da padaria.
Minutos depois, uma garrafa de vodca era escondida sob o registro de água, junto com um maço de Marlboro, ambos devidamente embrulhados em jornal, escondidos categoricamente.
- Obrigada, pessoal! Podem voltar a se pegar. Volto para chamá-los quando eu for cortar o bolo. Quer dizer... eu não, a minha mãe, pois pra ela eu ainda não sei manejar uma faca de cozinha! HAHAHAHAHA!!!
Saiu. E o tal do Clóvis olhou para a tia da menina e disse:
- Tem certeza que o aniversário dela é de cinco anos?
* * *
Foi para perto do registro d´água. Acendeu um cigarro. Tomou um belo gole de vodca...
- Ah... que coisa maravilhosa... melhor do que isso, só sexo... Mas sexo... deixe-me ver... argh! Daqui a treze anos... Vejamos... Primeiro porre daqui a... hum... não, esse não conta... eu já tô bebendo desde já! HAHAHAHAHA... Tá bom. Outra coisa. Primeiro computador... Daqui a catorze anos... Ah, meu computador... Que saudade dele... Dirigir... hum... treze anos também... E aquele menino... Aquele, bom de cama... Nossa! Daqui a dezoito anos! Cruzes! Parece que todas as boas coisas da minha vida vão acontecer só daqui a uma década... e aquele...
Foi quando irrompeu dos devaneios por uma voz infantil, uma voz da qual nunca esqueceu:
- O que é isso que você tá fazendo?
Era ele.
- Ah não... eu já tinha me esquecido disto!
ELE!
- Droga!
O primeiro amor da sua vida. Aquele garoto... Ah, aquele maldito garoto!
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