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    August 15

    NOSSAS VIDAS EM 1985 – PARTE SETE

    Dentro do carro, ia sacolejando. Ouvia uns murmúrios, mas nada que conseguisse identificar claramente. O saco em sua cabeça tinha um cheiro conhecido, mas não se atentou muito a isso, porque – no fundo – estava morrendo de medo. Confabulava as mais diversas conspirações a respeito daquilo que lhe parecia um rapto.

    No carro, ora parecia estar acompanhada de apenas uma pessoa, ora por duas... por várias vezes achou que o carro era dirigido pelo rádio, tamanha era a falta de destreza do motorista na direção. Sabia que a pessoa que guiava o automóvel era bastante atarantada, pois no caminho ouviu buzinas, sentiu as curvas mal feitas sem contar nas diversas vezes que percebeu ter o veículo "morrido" durante a trajetória.

    Quando o carro parou por definitivo, sentiu que era levada para dentro de algum lugar - provavelmente uma casa - uma vez que não subiu escadas nem sentiu entrar em qualquer tipo de elevador. Por fim, teve o saco retirado da sua cabeça e enxergou, apontada por um vulto, apenas uma forte luz à sua frente.

    Com medo, começou a arquitetar a sua desculpa espetacular: O que uma criança de quatro anos faria numa situação dessas??? Ei! Eu já tive quatro anos! O que eu fazia quando ficava com medo? Hum... eu quebrava os brinquedos, chutava a porta... não, não posso fazer isso... O que uma criança normal faria em uma situação como essa??? O QUÊ, MEU DEUS???

    E a voz do vulto irrompeu o silêncio:

    - Oi.

    - BUAAAAAAAAAAAAAAA!!! EU QUERO A MINHA MÃE!

    Sim! Essa é uma excelente reação para uma criança de quatro anos!

    - Pára com esse choro fingido.

    - GURP. Quem é você?

    - ...

    - Eu quero ir embora.

    - Mas já?

    - É!

    - Então vai.

    Foi então que ela percebeu que estava pura e simplesmente sentada em um banquinho de madeira. Nem havia se dado conta de que podia ter saído dali a qualquer instante.

    - Onde é que é a porta mesmo? Sabe como é... tá um pouco escuro aqui, sabe? E já que você foi tão legal me deixando sair assim, numa boa, eu pensei que...

    - Ali.

    E sem pensar duas vezes, saiu correndo. Correu uns vinte metros, sem nem olhar para trás. Até que parou. Ofegante, virou as costas. E quando olhou, quase que não pôde acreditar:

    Havia saído da própria casa.

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