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August 15 NOSSAS VIDAS EM 1985 – PARTE QUATROJá era 1986 na verdade. E havia um aniversário pela frente. Cinco aninhos, que bonitinha! A mãe pensava na festa: - Olha só, filha: que é que você acha da gente fazer uma festa com o Mickey? A mãe arregalou os olhos. Há duas semanas reinava a tranqüilidade na casa, desde o incidente do natal. A menina estava calma, comportada e assistia aos desenhos animados como qualquer criança da sua idade. Chegou a pensar que aqueles surtos da filha fossem apenas um crise temporária, mas agora tinha a certeza que não. - Filha, eu não gosto quando você fala desse jeito... Naquela mesma semana, os pais levaram a menina a uma terapeuta. Mulher de trinta e poucos anos que usava grandes óculos e um coque no cabelo. Tinha um olhar blasè praticamente tatuado no rosto. Apagava um cigarro quando entraram no consultório. Os pais conversavam com a psicóloga enquanto a menina ficava em um pequeno sofá vermelho, perto de uma estante repleta de livros médicos. Sentada ali, com as pernas balançando, sentiu pela primeira vez um saudosismo da infância: o de recostar no sofá e ainda assim poder balançar os pés, sem tocar no chão, como fazia agora. Deu um impulso no corpo e levantou. Viu na mesinha logo à sua frente, um exemplar da revista Capricho. Na capa, uma menina de catorze ou quinze anos exibia grandes polainas, acompanhada de uma daquelas calças de ginástica, finalizando o figurino com uma blusa amarela de bolinhas, horrível... - Ô época maldita! Por que eu tive de voltar justamente nos anos 80? Começou a refletir sobre isso. Até então, nunca havia parado para se perguntar o porquê de estar em 1986. Como aquilo havia acontecido, o motivo, a razão. Agora percebia que simplesmente aceitou a condição de voltar ao passado sem sequer questioná-la e... E agora? Ficou com medo de descobrir o motivo. Ainda olhando para a revista, viu estampada duas chamadas: "Saiba tudo sobre Kevin Bacon" e "Cindy Lauper Chocante". Não bastasse aquela maldita "We Are The World" tocando dia e noite nas rádios, ainda era obrigada a conviver com aquelas gírias bizarras. - E pensar que daqui a vinte anos isso tudo vai fazer um sucesso... A mãe, vez ou outra, procurava pela menina apenas com o olhar. A pequena, sentada no chão e folheando a revista dava à mãe a sensação de ser uma criança extremamente dócil e inofensiva. Esboçou um leve sorriso, até ver a filha levantando a revista e mostrando uma foto do George Michael: - Mãe, sabia que ele é bicha? Mas ele só vai assumir daqui uns quinze anos!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!! O sorriso logo se esvaiu e a mãe percebeu que a filha continuava a mesma. Quer dizer, não a mesma. Mas a.... a.... a... - Meu Deus! Quem é minha filha? O pai se aproxima da menina: - Querida, vou levar a sua mãe para tomar uma água com açúcar. Você vai ficar um pouquinho aqui e vai conversar com a doutora, tudo bem? Os dois saem e a menina volta-se para a psicóloga. Fica ali, impávida, inerte e absolutamente hipnotizada pela imagem daquela mulher. Alguns segundos se passam, até que a terapeuta quebra o silêncio: - Tá pensativa, é? E por falar em fashion, lembrou-se da Gisele Bündchen: "Uma criança medíocre igualzinha a mim! Porra nenhuma nessa vida!". - HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH!!! A doutora observava aquela cena e já começava a fazer seus pré-julgamentos a respeito da pequena. A menina percebeu que aquela risada histérica não seria muito favorável, uma vez que parecia uma criança descontrolada. Deu uma tossida e voltou a se concentrar nos grandes óculos da psicóloga, que perguntou: - Você quer um doce? TrackbacksThe trackback URL for this entry is: http://nossasvidasem1985.spaces.live.com/blog/cns!E3F7B4F45903EC25!113.trak Weblogs that reference this entry
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