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    August 15

    NOSSAS VIDAS EM 1985 – PARTE QUATRO

    Já era 1986 na verdade.

    E havia um aniversário pela frente. Cinco aninhos, que bonitinha!

    A mãe pensava na festa:

    - Olha só, filha: que é que você acha da gente fazer uma festa com o Mickey?
    - Eu não gosto do Mickey, mãe.
    - E do Pato Donald? Do Pateta? Olha a Minnie...
    - Mãe, eu odeio a Disney. O Mickey é o maior símbolo da dominação estadounidense.

    A mãe arregalou os olhos. Há duas semanas reinava a tranqüilidade na casa, desde o incidente do natal. A menina estava calma, comportada e assistia aos desenhos animados como qualquer criança da sua idade. Chegou a pensar que aqueles surtos da filha fossem apenas um crise temporária, mas agora tinha a certeza que não.

    - Filha, eu não gosto quando você fala desse jeito...
    - Por quê?
    - PORQUE VOCÊ É UMA CRIANÇA, ORAS!
    - Ah é...
    - Então... Minnie ou Mickey?
    - Kiss.
    - Como?
    - Eu quero uma festa de aniversário com coisas do Kiss!
    - K-K-Kiss!? A banda daquele linguarudo?
    - É!
    - Mas filha... Onde eu vou achar chapeuzinho de papelão e enfeite de refrigerante com o desenho do Kiss?

    Naquela mesma semana, os pais levaram a menina a uma terapeuta. Mulher de trinta e poucos anos que usava grandes óculos e um coque no cabelo. Tinha um olhar blasè praticamente tatuado no rosto. Apagava um cigarro quando entraram no consultório.

    Os pais conversavam com a psicóloga enquanto a menina ficava em um pequeno sofá vermelho, perto de uma estante repleta de livros médicos. Sentada ali, com as pernas balançando, sentiu pela primeira vez um saudosismo da infância: o de recostar no sofá e ainda assim poder balançar os pés, sem tocar no chão, como fazia agora.

    Deu um impulso no corpo e levantou. Viu na mesinha logo à sua frente, um exemplar da revista Capricho. Na capa, uma menina de catorze ou quinze anos exibia grandes polainas, acompanhada de uma daquelas calças de ginástica, finalizando o figurino com uma blusa amarela de bolinhas, horrível...

    - Ô época maldita! Por que eu tive de voltar justamente nos anos 80?

    Começou a refletir sobre isso. Até então, nunca havia parado para se perguntar o porquê de estar em 1986. Como aquilo havia acontecido, o motivo, a razão. Agora percebia que simplesmente aceitou a condição de voltar ao passado sem sequer questioná-la e... E agora? Ficou com medo de descobrir o motivo.

    Ainda olhando para a revista, viu estampada duas chamadas: "Saiba tudo sobre Kevin Bacon" e "Cindy Lauper Chocante". Não bastasse aquela maldita "We Are The World" tocando dia e noite nas rádios, ainda era obrigada a conviver com aquelas gírias bizarras.

    - E pensar que daqui a vinte anos isso tudo vai fazer um sucesso...

    A mãe, vez ou outra, procurava pela menina apenas com o olhar. A pequena, sentada no chão e folheando a revista dava à mãe a sensação de ser uma criança extremamente dócil e inofensiva. Esboçou um leve sorriso, até ver a filha levantando a revista e mostrando uma foto do George Michael:

    - Mãe, sabia que ele é bicha? Mas ele só vai assumir daqui uns quinze anos!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!

    O sorriso logo se esvaiu e a mãe percebeu que a filha continuava a mesma. Quer dizer, não a mesma. Mas a.... a.... a...

    - Meu Deus! Quem é minha filha?

    O pai se aproxima da menina:

    - Querida, vou levar a sua mãe para tomar uma água com açúcar. Você vai ficar um pouquinho aqui e vai conversar com a doutora, tudo bem?

    Os dois saem e a menina volta-se para a psicóloga. Fica ali, impávida, inerte e absolutamente hipnotizada pela imagem daquela mulher. Alguns segundos se passam, até que a terapeuta quebra o silêncio:

    - Tá pensativa, é?
    - Pois é... Estava aqui pensando que, daqui a uns vinte anos, esses seus óculos serão o que há de mais "féxion" nesse mundo, sabia?

    E por falar em fashion, lembrou-se da Gisele Bündchen: "Uma criança medíocre igualzinha a mim! Porra nenhuma nessa vida!".

    - HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH!!!

    A doutora observava aquela cena e já começava a fazer seus pré-julgamentos a respeito da pequena. A menina percebeu que aquela risada histérica não seria muito favorável, uma vez que parecia uma criança descontrolada. Deu uma tossida e voltou a se concentrar nos grandes óculos da psicóloga, que perguntou:

    - Você quer um doce?
    - Doce? Ah não! Mas olha, se você tiver um cigarro, eu aceito...

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