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August 15
Era o dia do aniversário. Não, não havia na festa nenhum enfeite de refrigerante com o Gene Simmons, Paul Stanley ou coisa parecida. "Dane-se! Nem gosto mais do Kiss mesmo...". Eram mickeys, donalds, patetas. Nas paredes, nos balões, na mesa, nos chapeuzinhos. Por toda a parte os docinhos, os salgadinhos, os refrigerantes. Por toda parte, crianças. Crianças, crianças e mais crianças. Crianças vizinhas, crianças da família, menos as crianças da escola. Não, não suportaria pisar no colégio na segunda-feira caso aquelas crianças fossem à festa. Não suportaria! A mãe, sem entender muito bem o porquê, apenas atendeu o pedido da filha.
- Tudo bem. Sem as crianças da escola então...
Cinco anos. Completava cinco anos. "Meu Deus", pensava, "ainda falta tanto tempo... tanto tempo...".
O estranho acontecimento da semana anterior não saía da sua cabeça. Não havia nenhuma explicação plausível para aquilo! Aquela mulher, o carro, a casa. A sua casa! Teriam colocado alguma coisa no leite com nescau?
- Não é possível. Minha primeira experiência com drogas acontecerá somente daqui a... a...
Fez uma rápida conta nos dedos...
- ... daqui a doze anos!
Estava submersa em pensamentos quando viu um grande pacote estendido à sua frente:
- Tó. - Hein?
A tia pegou o pacote da mão da prima gordinha e fez as vezes da pequena roliça:
- É o presente da sua prima! Ela que escolheu!
E olhou para a redonda prole e, com uma piscadinha seguida de um sorriso do tipo "ela vai adorar", falou:
- Abre!
Com sua delicadeza peculiar, rasgou todo o papel de uma vez só e retirou de dentro dele uma linda...
- ... uma linda boneca-bebê. Veja só, que beleza. - Gostou?
Pensou: "Ah, claro! Tanto quanto eu gosto de uma prisão de ventre!", mas esboçando um sorriso amarelo, limitou-se a dizer:
- Claro.
Enquanto a tia e a prima voltavam para junto dos outros parentes, olhou com tristeza para a prima gordinha. "Ah sim. Sem dúvida ela escolheu essa boneca PARA ELA. Sem dúvida que ela faria melhor uso desse brinquedo. Mas daqui a vinte anos ela terá a sua própria boneca. E de carne e osso. Assim como suas próprias panelinhas, seu próprio fogãozinho... essa, vai brincar de casinha a vida inteira..."
Voltou a pensar naquele acontecimento da semana anterior. Sentada num pufe, apoiava os cotovelos nos joelhos, olhava para o nada e vez ou outra empurrava para cima o chapeuzinho de papel que insistia em cair sobre os seus olhos. Mais uma vez, teve os pensamentos interrompidos por um novo convidado que segurava um presente:
- Oi. - Oi. - Para você. - Ah, brigada.
Ia quase colocando o presente de lado quando se lembrou que devia abrí-lo antes.
- Ah, veja só! Uma... boneca! - É, e ela fala, olha só!
E apertando um dispositivo nas costas do brinquedo, ouviu-se um "Mamãe!".
- Valeu tio.
Ia tentar voltar aos seus pensamentos mas percebeu que seria inútil tentar isso. A todo momento mais e mais convidados chegavam, o barulho das crianças começava a tornar-se insuportável e alguém teve a maldita idéia de colocar uma música do Balão Mágico para tocar...
"Quando você chega na classe Nem sabe Quanta diferença que faz E às vezes Faço que não vejo e não ligo E finjo, ser distraída demais..."
Começou a sentir um leve nó na garganta...
"Quantas vezes te desenhei Mas não consigo Ver o teu sorriso no fim Te sigo Caminhando pelo recreio Quem sabe Você tropeça em mim..."
Os olhos começaram a marejar...
"Se enamo..."
- BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Caiu em prantos. A mãe logo apareceu, ainda segurando algumas garrafas de refrigerante Taí nas mãos:
- Filha, que foi? - Ti-ti-ti-ra e-e-e-essa mú-mú-música... p-p-por f-f-favor...
A mãe fez sinal para alguém e logo a música foi substituída por um super hit do Roberto Carlos:
"Todo dia quando eu pego a estrada Quase sempre é madrugada E o meu amor aumenta mais..."
Percebeu claramente a empolgação das tias quando a música começou. Ótimo. Pelo menos, Roberto Carlos não a fazia chorar.
Veja bem, Balão Mágico é jogo sujo, golpe baixo. Aquelas músicas faziam parte da infância dela. Parte de uma vida realmente infantil e inocente. Ouvir aquela canção lhe trouxe à tona o saudosismo misturado com sua condição vã e intrusa naquele tempo, naquela época. Não conseguiria ouvir aquilo sem se emocionar nem sentir raiva de si mesma.
Passado o choro, foi levada a contragosto para o meio da molecada. Era impressionante quão estúpidas eram aquelas brincadeiras. Os meninos simplesmente se divertiam batendo uns nos outros. As meninas, renegadas na brincadeira brutal, ficavam apenas olhando e vez ou outra, desferindo chutes ao vento, na inútil tentativa de acertar algum menino.
Mais uma vez os tios jogavam truco e ela sentiu uma imensa vontade de ir para lá. Por fim, decidiu andar pelo quintal a esmo, sem rumo. Ouviu sussurros. Foi olhar atrás do muro: a tia mais nova, aquela do livro e da palestra sobre Marx, ela mesma, lá, em amassos semi-obscenos com o namorado da faculdade.
Ficou observando a cena com o peculiar olhar cruel das crianças, reflexo de uma mente cuja arquitetura do mal já trabalhava arduamente pensando em como poderia tirar proveito daquilo. Deu um espirro.
- AAAAAAAAATCHÔU!
A tia virou-se, um tanto descabelada e ofegante, mão no peito devido ao susto. O rapaz, apenas olhava a menina, atônito. Enquanto arrumava a blusa e os cabelos, a tia disse, quase calmamente:
- Olha só quem está aqui... - Ô tia, o vô sabe que você tá aqui? - Aqui na sua casa? Claro que sabe! - Não. Não tô falando sobre você estar aqui em casa! Tô falando de você estar nessa pegação aí com o... o...
O rapaz se adiantou e disse:
- Clóvis. - Clóvis! Que belo nome hein! HAHAHAHAHAHA!!! Enfim Clóvis, você conhece o meu avô, sabe que ele é um tanto... como posso dizer... rígido, não?
O rapaz olhou com espanto para a menina, depois para a namorada como que perguntando "como ela consegue falar assim?" e novamente olhou para a menina, dizendo:
- É. Eu sei. - Pois então Clóvis. Pior que meu vô, são meus tios, irmãos da minha tia aí, sabia? - Não... quer dizer... sei, mas... é... onde você quer chegar com isso? - Eu quero chegar no seguinte: um maço de cigarros e uma garrafa de vodca. Pode ser da padaria.
Minutos depois, uma garrafa de vodca era escondida sob o registro de água, junto com um maço de Marlboro, ambos devidamente embrulhados em jornal, escondidos categoricamente.
- Obrigada, pessoal! Podem voltar a se pegar. Volto para chamá-los quando eu for cortar o bolo. Quer dizer... eu não, a minha mãe, pois pra ela eu ainda não sei manejar uma faca de cozinha! HAHAHAHAHA!!!
Saiu. E o tal do Clóvis olhou para a tia da menina e disse:
- Tem certeza que o aniversário dela é de cinco anos?
* * *
Foi para perto do registro d´água. Acendeu um cigarro. Tomou um belo gole de vodca...
- Ah... que coisa maravilhosa... melhor do que isso, só sexo... Mas sexo... deixe-me ver... argh! Daqui a treze anos... Vejamos... Primeiro porre daqui a... hum... não, esse não conta... eu já tô bebendo desde já! HAHAHAHAHA... Tá bom. Outra coisa. Primeiro computador... Daqui a catorze anos... Ah, meu computador... Que saudade dele... Dirigir... hum... treze anos também... E aquele menino... Aquele, bom de cama... Nossa! Daqui a dezoito anos! Cruzes! Parece que todas as boas coisas da minha vida vão acontecer só daqui a uma década... e aquele...
Foi quando irrompeu dos devaneios por uma voz infantil, uma voz da qual nunca esqueceu:
- O que é isso que você tá fazendo?
Era ele.
- Ah não... eu já tinha me esquecido disto!
ELE!
- Droga!
O primeiro amor da sua vida. Aquele garoto... Ah, aquele maldito garoto!
Dentro do carro, ia sacolejando. Ouvia uns murmúrios, mas nada que conseguisse identificar claramente. O saco em sua cabeça tinha um cheiro conhecido, mas não se atentou muito a isso, porque – no fundo – estava morrendo de medo. Confabulava as mais diversas conspirações a respeito daquilo que lhe parecia um rapto.
No carro, ora parecia estar acompanhada de apenas uma pessoa, ora por duas... por várias vezes achou que o carro era dirigido pelo rádio, tamanha era a falta de destreza do motorista na direção. Sabia que a pessoa que guiava o automóvel era bastante atarantada, pois no caminho ouviu buzinas, sentiu as curvas mal feitas sem contar nas diversas vezes que percebeu ter o veículo "morrido" durante a trajetória.
Quando o carro parou por definitivo, sentiu que era levada para dentro de algum lugar - provavelmente uma casa - uma vez que não subiu escadas nem sentiu entrar em qualquer tipo de elevador. Por fim, teve o saco retirado da sua cabeça e enxergou, apontada por um vulto, apenas uma forte luz à sua frente.
Com medo, começou a arquitetar a sua desculpa espetacular: O que uma criança de quatro anos faria numa situação dessas??? Ei! Eu já tive quatro anos! O que eu fazia quando ficava com medo? Hum... eu quebrava os brinquedos, chutava a porta... não, não posso fazer isso... O que uma criança normal faria em uma situação como essa??? O QUÊ, MEU DEUS???
E a voz do vulto irrompeu o silêncio:
- Oi.
- BUAAAAAAAAAAAAAAA!!! EU QUERO A MINHA MÃE!
Sim! Essa é uma excelente reação para uma criança de quatro anos!
- Pára com esse choro fingido.
- GURP. Quem é você?
- ...
- Eu quero ir embora.
- Mas já?
- É!
- Então vai.
Foi então que ela percebeu que estava pura e simplesmente sentada em um banquinho de madeira. Nem havia se dado conta de que podia ter saído dali a qualquer instante.
- Onde é que é a porta mesmo? Sabe como é... tá um pouco escuro aqui, sabe? E já que você foi tão legal me deixando sair assim, numa boa, eu pensei que...
- Ali.
E sem pensar duas vezes, saiu correndo. Correu uns vinte metros, sem nem olhar para trás. Até que parou. Ofegante, virou as costas. E quando olhou, quase que não pôde acreditar:
Havia saído da própria casa.
- ... e todo mundo vai ter um e... - Mas como funciona? - Ah, eu não sei assim, cientificamente como funciona... Mas ele emite um sinal, tem todo um sistema que capta e transmite... É meio complexo... Vão existir uns que tocam música, tiram fotos, uma beleza... Em shows, por exemplo, você acha que o povo vai continuar acendendo isqueirinho igual no Rock In Rio do ano passado? Que nada! Você verá em estádios a maravilha da telefonia celular... - Nossa... mas isso é incrível! Que mais que esse aparelho faz? - Serve cafezinho e te dá tapa na bunda! HAHAHAHAHAHAHAHA!
Lá estava ela, em meio ao grupo dos garotos superdotados do núcleo de Ciências, interessados na mais alta tecnologia, que, na época, se resumia a um processador de 256 megas do tamanho de uma geladeira. Lá estava ela, contando sobre como seria a vida após a revolução dos telefones celulares.
Tudo parecia um tanto utópico para aqueles meninos de quinze anos que já estavam prestes a iniciar a pós graduação. Ela não era daquela turma, ficava na verdade com as crianças de dez anos que já estavam prestes a terminar o segundo grau. Realmente não compreendia o que fazia naquela escola, já que não tinha um Q.I. superior e muitas daquelas crianças sabiam fazer mais contas do que qualquer Físico Quântico. Mas era divertido ficar contando sobre como seria a vida no século 21 para todos aqueles aficionados por ciência. Eles ficavam maravilhados, ao mesmo tempo que duvidavam de muitas histórias.
- Ah, duvido! - Tô falando! Esses processadores do tamanho de um armário vão caber num chaveirinho, ó... Desse tamaninho! Chama "pen drive". Bem legal viu!
Do meio do grupo, surge um garoto que grita:
- MENTIROSA! Você é uma baita mentirosa! - Eu? - É isso mesmo! - Vai à merda, seu gordinho desgraçado! Quem é você pra me chamar de mentirosa? - Fica aí, achando que veio do futuro, enganando esses pobres doentes por ciência! - Olha aqui, ô rosquinha de banana... Eu não estou mentindo! Tanto não estou que posso te garantir que o Herzog foi assassinado, a morte de Tancredo Neves foi um golpe e esse bigodudo do Sarney vai cair! VAI CAIR, BICHO! Esse velho dura só até o final dessa década e... - E o que é que isso tem a ver com ciência? - Eu não faço a menor idéia, mas isso é só pra você ver que eu não estou mentindo, seu rolha de poço dos infernos!
E lá foi-se o gordinho pra cima dela...
- Sua anã maldita! - Seu gordo viado! - Piolhenta! - Proxeneta! - Meu pai é militar! Vou contar tudo isso que você falou pra ele! - A ditadura já acabou seu boçal! Acabou ano passado! - Você que pensa!
E rolavam os dois no chão quando um magrelo de óculos gritou pela inspetora. Enquanto isso, um dos superdotados da área de Humanas perguntava para a loirinha magrela de sete anos:
- O que é um "proxeneta"? Parece ser um bom xingamento, você não acha? - Vamos procurar no dicionário, esse parece ser um excelente verbete!
Naquele mesmo dia, enquanto saía da escola, foi colocada num carro por uma mulher desconhecida. Quando se deu conta de quem poderia ser aquela gente e de onde estava prestes a chegar, só teve um pensamento:
- Gordinho filho da puta!
Mas insisto em lembrar que já era 1986.
- Sua filha precisa de uma escola especial.
- Como assim? Ela é doente?
- Olha, eu não sei ainda se ela é doente, talvez seja necessário eu fazer algumas experiências com ela, dessas que eu tenho tentado com aqueles ramsters ali...
- EXPERIÊNCIAS???
Antes do pai voltar para o consultório, as duas haviam conversado e fumado durante toda a sessão:
- Onde você aprendeu a fumar?
- Ah, uma vez eu estava saindo do colégio, parei num boteco e comprei um maço de Hollywood Mentolado.
- Sei...
Acendeu o cigarro e olhou para a terapeuta, que a observava estupefata. Lembrou-se de que não podia contar aquelas coisas, ainda era uma criança de quatro anos.
- Brincadeira.
A terapeuta ficou por meia hora ouvindo as considerações da menina. Descobriu que ela odiava aquela novela Roque Santeiro. Segundo a pequena, "uma trama cheia de gente caricata e com trilha sonora horrível":
- Chega de ficar ouvindo "tudo azul, Adão e Eva no paraíso"!
- Eu ainda acho "Dona" bem pior...
- Olha, a Regina Duarte não sabe o mal que fez para si aceitando esse papel de Viúva Porcina. Essa personagem vai perseguí-la pelo resto da vida, escuta o que eu tô te falando.
- Ai, eu também acho aquilo um horror...
Depois, descobriu que Freddy Mercury era gay:
- Como assim... "gay"?
- Pois é... Bichona total! Ah vai... Nenhum homem que se preze usa calça coladinha... Se bem que estamos nos anos 80, isso não é lá muito válido...
- Desculpe, como assim?
- Ah, esquece!
Por fim, descobriu que os Titãs revolucionariam o rock daquele ano com o lançamento de um de seus melhores álbuns:
- Você vai ver! Nunca mais nada, eu disse NADA dos Titãs se comparará ao "Cabeça Dinossauro"!
- É mesmo?
- "Bichos Escrotos" vai virar hino! E "Polícia" será entoada até o século 21, incansavelmente!
- Que coisa, não?
- Pois é... E pensar que daqui a vinte anos eles serão toooooodos uns velhos babões fazendo música de elevador...
- Eles são um tanto revoltados não?
- Ih, tudo fachada! Eles vão ficar velhos e vão gravar um monte de MPB vagabunda! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
E assim, menina e terapeuta passaram quarenta minutos conversando, até que fosse a hora dos pais voltarem ao consultório.
- EXPERIÊNCIAS???
- HAHAHAHAHA... Brincadeirinha! Cadê seu senso de humor? Sua filha tem uma idade mental dez vezes maior que a sua, você deveria estar orgulhoso!
- Isso só pode ser piada...
Já era 1986 na verdade.
E havia um aniversário pela frente. Cinco aninhos, que bonitinha!
A mãe pensava na festa:
- Olha só, filha: que é que você acha da gente fazer uma festa com o Mickey? - Eu não gosto do Mickey, mãe. - E do Pato Donald? Do Pateta? Olha a Minnie... - Mãe, eu odeio a Disney. O Mickey é o maior símbolo da dominação estadounidense.
A mãe arregalou os olhos. Há duas semanas reinava a tranqüilidade na casa, desde o incidente do natal. A menina estava calma, comportada e assistia aos desenhos animados como qualquer criança da sua idade. Chegou a pensar que aqueles surtos da filha fossem apenas um crise temporária, mas agora tinha a certeza que não.
- Filha, eu não gosto quando você fala desse jeito... - Por quê? - PORQUE VOCÊ É UMA CRIANÇA, ORAS! - Ah é... - Então... Minnie ou Mickey? - Kiss. - Como? - Eu quero uma festa de aniversário com coisas do Kiss! - K-K-Kiss!? A banda daquele linguarudo? - É! - Mas filha... Onde eu vou achar chapeuzinho de papelão e enfeite de refrigerante com o desenho do Kiss?
Naquela mesma semana, os pais levaram a menina a uma terapeuta. Mulher de trinta e poucos anos que usava grandes óculos e um coque no cabelo. Tinha um olhar blasè praticamente tatuado no rosto. Apagava um cigarro quando entraram no consultório.
Os pais conversavam com a psicóloga enquanto a menina ficava em um pequeno sofá vermelho, perto de uma estante repleta de livros médicos. Sentada ali, com as pernas balançando, sentiu pela primeira vez um saudosismo da infância: o de recostar no sofá e ainda assim poder balançar os pés, sem tocar no chão, como fazia agora.
Deu um impulso no corpo e levantou. Viu na mesinha logo à sua frente, um exemplar da revista Capricho. Na capa, uma menina de catorze ou quinze anos exibia grandes polainas, acompanhada de uma daquelas calças de ginástica, finalizando o figurino com uma blusa amarela de bolinhas, horrível...
- Ô época maldita! Por que eu tive de voltar justamente nos anos 80?
Começou a refletir sobre isso. Até então, nunca havia parado para se perguntar o porquê de estar em 1986. Como aquilo havia acontecido, o motivo, a razão. Agora percebia que simplesmente aceitou a condição de voltar ao passado sem sequer questioná-la e... E agora? Ficou com medo de descobrir o motivo.
Ainda olhando para a revista, viu estampada duas chamadas: "Saiba tudo sobre Kevin Bacon" e "Cindy Lauper Chocante". Não bastasse aquela maldita "We Are The World" tocando dia e noite nas rádios, ainda era obrigada a conviver com aquelas gírias bizarras.
- E pensar que daqui a vinte anos isso tudo vai fazer um sucesso...
A mãe, vez ou outra, procurava pela menina apenas com o olhar. A pequena, sentada no chão e folheando a revista dava à mãe a sensação de ser uma criança extremamente dócil e inofensiva. Esboçou um leve sorriso, até ver a filha levantando a revista e mostrando uma foto do George Michael:
- Mãe, sabia que ele é bicha? Mas ele só vai assumir daqui uns quinze anos!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
O sorriso logo se esvaiu e a mãe percebeu que a filha continuava a mesma. Quer dizer, não a mesma. Mas a.... a.... a...
- Meu Deus! Quem é minha filha?
O pai se aproxima da menina:
- Querida, vou levar a sua mãe para tomar uma água com açúcar. Você vai ficar um pouquinho aqui e vai conversar com a doutora, tudo bem?
Os dois saem e a menina volta-se para a psicóloga. Fica ali, impávida, inerte e absolutamente hipnotizada pela imagem daquela mulher. Alguns segundos se passam, até que a terapeuta quebra o silêncio:
- Tá pensativa, é? - Pois é... Estava aqui pensando que, daqui a uns vinte anos, esses seus óculos serão o que há de mais "féxion" nesse mundo, sabia?
E por falar em fashion, lembrou-se da Gisele Bündchen: "Uma criança medíocre igualzinha a mim! Porra nenhuma nessa vida!".
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH!!!
A doutora observava aquela cena e já começava a fazer seus pré-julgamentos a respeito da pequena. A menina percebeu que aquela risada histérica não seria muito favorável, uma vez que parecia uma criança descontrolada. Deu uma tossida e voltou a se concentrar nos grandes óculos da psicóloga, que perguntou:
- Você quer um doce? - Doce? Ah não! Mas olha, se você tiver um cigarro, eu aceito...
Véspera de Natal. Toda a "pequena" família de 15 primos, tios, tias, vô e vó reunida... e ela. Ali, sentada no cantinho, tomando Tang Uva na canequinha dos Trapalhões. Uma prima se aproxima:
- Vâmo brincá. Ó, tô essa boneca pra você e essa pra mim. Eu sou uma rica e você é minha empregada. - Ah, vai te catar, ow! Eu nem gosto de brincar de boneca.
E jogou a pobre Barbie no colo da prima.
- Buaaaaaaaaaaaaaaaa...
Foi para a cozinha. As mulheres da família conversavam fervorosamente enquanto os homens tomavam cerveja e iniciavam uma partida de truco. Resolveu ficar com eles. Sorrateiramente, despejou o suco no xaxim da samabaia e roubou uma latinha de cerveja, já na metade, preenchendo toda a sua linda canequinha com a bebida.
- Ah... pra ser melhor, só um cigarro.
Mas seria uma loucura tentar fumar ali. Até via alguns maços espalhados pela casa mas decidiu não causar tumulto. Começou a perambular, aqui e acolá, sempre acompanhada da canequinha. Vez ou outra passava perto da mesa de truco e enquanto os tios gritavam "SEEEEEEEEIS LADRÃO" lá estava ela, roubando mais alguns goles de cerveja.
Pouco antes da meia noite, uma das tias reuniu as crianças, inclusive ela - já um tanto bêbada - e anunciou que uma grande surpresa estava para acontecer. De repente, as crianças – com idades que variavam de 3 a 7 anos – estavam em estado eufórico. Ela não entendia muito bem o porquê de tanta agitação, mas resolveu ir ao banheiro naquele momento, antes que fizesse xixi na saia.
Sentada no vaso, ouviu gritos vindos da sala. As crianças desferiam um entusiasmado "ÊÊÊÊÊÊÊÊÊ" e ela logo se deu conta de que era hora de voltar, apesar de um tanto alta.
- Gui zzzerá gui tá acontezzzzendo?
Chegou na sala e viu um dos tios vestidos de Papai Noel. Ele distribuía os presentes, com etiquetas estratégicas indicando o quê era pra quem...
- Ho, ho, ho! Olha você aí! Papai Noel também te trouxe um presente!
Pegou o embrulho, abriu e sentiu a face ficando vermelha de raiva.
- Que merda de boneca é essa? Eu pedi uma máquina de escrever, porra!
Fez-se o silêncio na sala. Até porque, não é em todo natal que uma criança de 4 anos fala tantas palavras bonitas na frente de toda a família...
- Eu pedi uma máquina de escrever! Que é que eu vou fazer com essa porcaria aqui?
A mãe, até então tranqüila pelo fato da filha nunca mais ter surtado nem colocado cigarros na boca, quis manifestar-se, mas o pai a conteve. Não seria adequado dar uma surra na menina ali, na frente de todos. Ao invés disso, ele desferiu um olhar congelante para a filha, aqueles do tipo "em-casa-a-gente-conversa", mas que não teve resultado algum.
- Eu odeio boneca. E digo mais: isso aqui é uma forma dessa sociedade machista manipular nós, mulheres, que desde pequenas somos treinadas a conviver com utensílios domésticos em forma de brinquedos e ver bonecas lindas, louras e magras como forma de padrão estético! DIGAM NÃO A ESSA MANIPULAÇÃO e...
A mãe, nesse momento, engasgava com a água que o pai havia buscado. Uma das tias fazia cara de horror, pensando "quem ensina essas coisas para essa menina" e o tio, fantasiado de Papai Noel, apenas assistia a tudo, perplexo, como o resto da família...
Dirigindo-se às crianças, ela continuava:
- E tem mais! Papai Noel não existe. NÃO EXISTE! Essa cara aqui é o tio, ó!
E puxou a barba de mentira que cobria o rosto do pseudo Papai Noel. As crianças soltaram um "oooooh" enquanto olhavam para cima, constatando que, realmente, o Papai Noel era o tio. Um dos primos, o de 7 anos, disse:
- Bem que eu percebi que tinha alguma coisa errada! Por isso que eu nunca ganho meus presentes. Minha carta não vai pro Papai Noel, vai pro tio!
E ela não parava:
- E querem saber de mais? O coelhinho da Páscoa também não existe! É tudo uma manipulação comercial! MANIPULAÇÃO e...
O pai não se conteve e agarrou a menina. Colocou a mão em sua boca, pegou a no colo e levou-a pra fora da casa. Algumas crianças choravam, desoladas, ao descobrir em uma só noite tantas verdades sobre os mitos que permeavam suas tenras infâncias.
Do lado de fora da casa, o pai agacha-se no chão e pergunta:
- De onde você tirou isso menina!? Hoje é natal! Por que você não vai brincar com o seu presente, pra quê fazer isso? O que é que você tem minha filha???
A tia mais nova, estudante de Sociologia, surge à porta e pede para conversar com a pequena:
- Entra lá. Sua mulher tá surtando, acho que ela engasgou com a rabanada, tá quase morrendo no sofá... - Como?
E foi correndo para dentro da casa.
- Ei pequena... Que discurso foi aquele, lá dentro? - Ai não tia... Até você? - Não... Calma... Eu achei muito legal, eu achei ótimo! Aonde você aprendeu aquilo? Foi excelente! - Ah, eu não sei aonde eu aprendi, só sei que eu tô bêbada... - Então, vem cá. Olha, eu não posso te dar minha máquina de escrever, porque eu a uso, mas... Você já lê? - Já. - Já? Assim, com 4 anos? - É, eu aprendi. - Então, eu vou fazer uma coisa. Eu vou te dar um livrinho bem legal que eu tive de ler pra faculdade... É curtinho, acho que você vai gostar... - Jura? Até que enfim um presente que presta!
E foi com ela até o quarto. Tirou da estante um pequeno exemplar e o entregou à menina.
- Taí. Espero que você goste.
"A Revolução dos Bichos" – G. Orwell.
- Pôxa tia! Já ouvi falar dele. Ele é ótimo! - Já ouviu falar dele? Ensinam Orwell para as crianças no Jardim? - Não... esquece... - Bom... Enfim... A propósito... Quer ir a uma palestra sobre marxismo que vai ter mês que vem lá na faculdade?
- Como assim, fumando? - Pois é, José Carlos... FUMANDO! - Nossa filha? FUMANDO? - É! Ela tava lá, na padaria, com um... um... MARLBORO NA MÃO!!! - Mas... ela só tem quatro anos! - EU SEEEEEI!!!
Enquanto isso, lá estava ela, na sala, tentando assistir ao telejornal.
- Ow! Fala mais baixo aí!
Desesperados, os pais tomaram uma decisão:
- Vamos tirar a menina daquela escola.
Dois dias depois, de uniforme vermelho e mochila devidamente revistada pela mãe, a pequena adentrava a nova escolinha.
Entrou na sala, foi apresentada aos novos coleguinhas e sentou-se em uma carteira do fundo, próxima à janela. A professora já havia sido avisada do episódio ocorrido dias antes e estava de olho naquele projeto de gente, aparentemente tão inofensivo...
Na hora do recreio, tomava o maldito leite quando, para puxar conversa com um garoto, resolveu perguntar:
- Ei! Você sabe como as crianças nascem? - Eu não... - Não sabe como você nasceu? - Minha mãe disse que foi a cegonha que trouxe eu. - Mentira. Seu pai comeu sua mãe, ela ficou grávida e você nasceu. - Meu pai comeu minha mãe? - É!
A garotinha do lado olha perplexa e pergunta:
- Os pais comem as mães? - Comem.
Outra criança se aproximou.
- Comem de verdade? - De verdade!
Em minutos, uma roda formava-se e as crianças agitavam-se ao descobrir que os pais comiam as mães para que elas nascessem.
Nesse dia, muitos progenitores ficaram perplexos ao depararem-se com as novas descobertas de seus infantes:
- E aí querida? O que é que você aprendeu hoje, conta para a mamãe. - Eu aprendi que os pais comem as mães e aí a gente nasce... - O QUÊ???
* * *
- Como foi a aula, garotão? - Foi legal. Pai, a mamãe é gostosa? - Co-como? - A mamãe é gostosa? - Por que você está me perguntando isso, filho? - É que eu descobri que para as crianças nascerem, o pai come a mãe. A mamãe é gostosa?
* * *
No dia seguinte, a professora não dava conta de tamanho alvoroço em frente a sala de aula, enquanto arrependia-se amargamente por ter escolhido o magistério.
- Que tipo de aula é essa??? - Meu filho só tem quatro anos! - Educação sexual no Jardim II? Onde já se viu!!! - Gente, eu nunca ensinei isso para as crianças! Eles só brincam, pintam desenhos e tomam leite!
Depois dessa afirmação, um dos pais teve a brilhante idéia de perguntar para o filho quem havia dito tal promiscuidade.
- Foi ela ali, ó.
Com a expressão mais inocente do mundo, respondeu:
- Eu? Que foi que eu fiz? - VOCÊ DISSE PARA O MEU FILHO QUE ELE NASCEU PORQUE EU COMI A MÃE DELE!!! - E não foi?
Uma hora depois, a mãe manobrava o carro no estacionamento da escola, preocupada por ter sido chamada com tamanha urgência. Sentada em um cantinho, com cara de tédio, lá estava ela...
- Que é que você aprontou dessa vez, menina?
Entrou na sala da Diretora.
- Sua filha está expulsa. - Como assim? - Sua filha está expulsa desta escola! - Mas... - E a senhora? Que vergonha! Onde já se viu ensinar uma coisa dessas para uma criança de quatro anos? - QUE COISA??? - A sua filha saiu espalhando para todas as outras que para que elas nascessem o pai tinha de comer a mãe!
A pobre mulher desmaiou e caiu da cadeira.
Depois de um copo d´água, pegou a pequena pelo braço, ou melhor, pela orelha, levando a menina até o carro:
- Onde é que você aprende essas coisas, hein? Você vai ter uma conversa séria com o seu pai!
Apesar de sentir a orelha queimando, a pequena ainda conseguia esboçar um sorriso, enquanto pensava:
- Precisei regredir vinte anos para conseguir ser expulsa de uma escola! HAHA!
Saiu da cama sonolenta, como fazia todos os dias. Sentia frio e bocejava de cinco em cinco segundos. Olhos semi cerrados, cabelos desgrenhados, meia furada. Entrou no banheiro, olhou-se no espelho e soltou um berro:
- AAAAAAAAAAAAAH! QUE QUE É ISSO?
A mãe apareceu segundos depois na porta:
- Filha, que aconteceu? A mamãe ia te acordar! Tá cedo ainda, meu amor... - Co-co-como assim, "meu amor"? - Vem, a mamãe te leva no colo... - Me leva no colo???
Mil novecentos e oitenta e cinco: era o ano que mostrava o calendário.
Se deu conta de que usava um pijama de ursinhos, que seu despertador era um palhaço e sua roupa de cama tinha na estampa um monte de bonecas coloridas. No quarto, não tinha mais o computador. O velho baú de brinquedos mostrava-se novo, ao lado da porta... CD´s? O que é que é isso, minha cara! Estamos em mil novecentos e oitenta e cinco!!!
- Minhas bandas preferidas nem existem ainda...
Deitou-se novamente, olhando para o teto. Cobriu metade do rosto e começou a pensar:
"Se estou em 1985, eu tenho 4 anos. Teoricamente, não sei ler nem escrever ainda. Devo estar no Jardim II e ano que vem vou para o Pré-primário I..."
Sentiu uma onda de pânico invadindo seu corpo. Lembrou-se da crueldade infantil, dos garotos terríveis que amarravam os cadarços de seu tênis bamba só para verem a pequena levando um tombo, lembrou da professora que contava historinhas chatas e...
- O que é que eu estou fazendo nesse corpo? Eu continuo pensando do mesmo jeito! Eu posso dizer que sei o futuro! Eu posso, eu posso... que merda... nunca guardei nenhum número da megasena...
A mãe apareceu na porta:
- Vem filhinha... Levanta!
E pegou a menina no colo.
- Vamos para a escolinha...
Uma hora depois, estava sendo deixada na porta de uma sala de aula com cadeiras minúsculas, trajada com o mais perfeito uniforme azul marinho de helanca, dotado de suas belas listras laterais. Custou a reconhecer os coleguinhas de sala, pensou que agora era mais uma pirralha nojenta.
Jogou a mochila em cima de uma mesa e sem querer, atingiu uma pequena garota loirinha...
- Uááááááááááhhhhhhh... - Que foi, ow! A mochila só encostou em você! Pára de chorar, sua debilóide!
As lágrimas cessaram na hora.
"Como criança é besta..."
Começou a aula. Todos cantam uma música. Depois, todos pintam um desenho. Em seguida, mais uma música. Mais um desenho. Mais uma música...
"Ai, que inferno isso!"
Hora do intervalo. Entrou em qualquer lugar na fila e com um leve ar blasè, resmungava para si mesma. A professora se aproximou:
- Venha para o seu lugar. Está tudo bem querida? - Não. Tá tudo péssimo! - Que foi? Alguém brigou com você? - Não. É que eu odeio leite. Tem café aí?
A professora arregalou os olhos.
- Te-tem... mas é para os professores... - Ai, tia! Arruma um gole para mim, vai... - Não posso... Eu... eu... nossa... você está tão diferente... - É... eu sei. Tá bom. Eu tomo essa droga de leite.
Na primeira oportunidade que teve, saiu correndo. Passou na sala de aula, pegou a mochila e conseguiu escapar pelo vão do portão enquanto o vigia tirava um cochilo. Parou dois quarteirões depois e começou a vasculhar a bolsa: lápis de cor, borracha, caderno brochura... Dinheiro!
Correu até a padaria mais próxima, esticou os pés o máximo que pôde e fez seu pedido. O português a olhava com estranheza e chegou a perguntar o que é que uma garota daquela idade fazia sozinha às quinze para as onze da manhã.
- Como assim? Que é que tem minha idade? Já sou bem grandinha já, viu!
O homem coçou a cabeça, depois o bigode e voltou a atender os outros clientes.
Meia hora depois, aparece a professora e a mãe da menina, ambas arfantes, na porta do estabelecimento...
- Graças a Deus – falou a professora. - Minha filhinhaaaaaa!!! – gritava a mãe – Por que você fugiu da escola!? - É! Por que você fugiu da escola? Se foi por causa do café, saiba que, se sua mãe autorizar, eu deixo você tomá-lo! Nada de leite, nada de leite...
A pequena acendeu um cigarro.
A professora ficou boquiaberta. A mãe, chocada!
Olhou para as duas, com um expressão de surpresa e falou:
- Que é que foi gente? É só um cigarro!
Foi então que se lembrou que tinha apenas quatro anos.
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