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August 15
Véspera de Natal. Toda a "pequena" família de 15 primos, tios, tias, vô e vó reunida... e ela. Ali, sentada no cantinho, tomando Tang Uva na canequinha dos Trapalhões. Uma prima se aproxima:
- Vâmo brincá. Ó, tô essa boneca pra você e essa pra mim. Eu sou uma rica e você é minha empregada. - Ah, vai te catar, ow! Eu nem gosto de brincar de boneca.
E jogou a pobre Barbie no colo da prima.
- Buaaaaaaaaaaaaaaaa...
Foi para a cozinha. As mulheres da família conversavam fervorosamente enquanto os homens tomavam cerveja e iniciavam uma partida de truco. Resolveu ficar com eles. Sorrateiramente, despejou o suco no xaxim da samabaia e roubou uma latinha de cerveja, já na metade, preenchendo toda a sua linda canequinha com a bebida.
- Ah... pra ser melhor, só um cigarro.
Mas seria uma loucura tentar fumar ali. Até via alguns maços espalhados pela casa mas decidiu não causar tumulto. Começou a perambular, aqui e acolá, sempre acompanhada da canequinha. Vez ou outra passava perto da mesa de truco e enquanto os tios gritavam "SEEEEEEEEIS LADRÃO" lá estava ela, roubando mais alguns goles de cerveja.
Pouco antes da meia noite, uma das tias reuniu as crianças, inclusive ela - já um tanto bêbada - e anunciou que uma grande surpresa estava para acontecer. De repente, as crianças – com idades que variavam de 3 a 7 anos – estavam em estado eufórico. Ela não entendia muito bem o porquê de tanta agitação, mas resolveu ir ao banheiro naquele momento, antes que fizesse xixi na saia.
Sentada no vaso, ouviu gritos vindos da sala. As crianças desferiam um entusiasmado "ÊÊÊÊÊÊÊÊÊ" e ela logo se deu conta de que era hora de voltar, apesar de um tanto alta.
- Gui zzzerá gui tá acontezzzzendo?
Chegou na sala e viu um dos tios vestidos de Papai Noel. Ele distribuía os presentes, com etiquetas estratégicas indicando o quê era pra quem...
- Ho, ho, ho! Olha você aí! Papai Noel também te trouxe um presente!
Pegou o embrulho, abriu e sentiu a face ficando vermelha de raiva.
- Que merda de boneca é essa? Eu pedi uma máquina de escrever, porra!
Fez-se o silêncio na sala. Até porque, não é em todo natal que uma criança de 4 anos fala tantas palavras bonitas na frente de toda a família...
- Eu pedi uma máquina de escrever! Que é que eu vou fazer com essa porcaria aqui?
A mãe, até então tranqüila pelo fato da filha nunca mais ter surtado nem colocado cigarros na boca, quis manifestar-se, mas o pai a conteve. Não seria adequado dar uma surra na menina ali, na frente de todos. Ao invés disso, ele desferiu um olhar congelante para a filha, aqueles do tipo "em-casa-a-gente-conversa", mas que não teve resultado algum.
- Eu odeio boneca. E digo mais: isso aqui é uma forma dessa sociedade machista manipular nós, mulheres, que desde pequenas somos treinadas a conviver com utensílios domésticos em forma de brinquedos e ver bonecas lindas, louras e magras como forma de padrão estético! DIGAM NÃO A ESSA MANIPULAÇÃO e...
A mãe, nesse momento, engasgava com a água que o pai havia buscado. Uma das tias fazia cara de horror, pensando "quem ensina essas coisas para essa menina" e o tio, fantasiado de Papai Noel, apenas assistia a tudo, perplexo, como o resto da família...
Dirigindo-se às crianças, ela continuava:
- E tem mais! Papai Noel não existe. NÃO EXISTE! Essa cara aqui é o tio, ó!
E puxou a barba de mentira que cobria o rosto do pseudo Papai Noel. As crianças soltaram um "oooooh" enquanto olhavam para cima, constatando que, realmente, o Papai Noel era o tio. Um dos primos, o de 7 anos, disse:
- Bem que eu percebi que tinha alguma coisa errada! Por isso que eu nunca ganho meus presentes. Minha carta não vai pro Papai Noel, vai pro tio!
E ela não parava:
- E querem saber de mais? O coelhinho da Páscoa também não existe! É tudo uma manipulação comercial! MANIPULAÇÃO e...
O pai não se conteve e agarrou a menina. Colocou a mão em sua boca, pegou a no colo e levou-a pra fora da casa. Algumas crianças choravam, desoladas, ao descobrir em uma só noite tantas verdades sobre os mitos que permeavam suas tenras infâncias.
Do lado de fora da casa, o pai agacha-se no chão e pergunta:
- De onde você tirou isso menina!? Hoje é natal! Por que você não vai brincar com o seu presente, pra quê fazer isso? O que é que você tem minha filha???
A tia mais nova, estudante de Sociologia, surge à porta e pede para conversar com a pequena:
- Entra lá. Sua mulher tá surtando, acho que ela engasgou com a rabanada, tá quase morrendo no sofá... - Como?
E foi correndo para dentro da casa.
- Ei pequena... Que discurso foi aquele, lá dentro? - Ai não tia... Até você? - Não... Calma... Eu achei muito legal, eu achei ótimo! Aonde você aprendeu aquilo? Foi excelente! - Ah, eu não sei aonde eu aprendi, só sei que eu tô bêbada... - Então, vem cá. Olha, eu não posso te dar minha máquina de escrever, porque eu a uso, mas... Você já lê? - Já. - Já? Assim, com 4 anos? - É, eu aprendi. - Então, eu vou fazer uma coisa. Eu vou te dar um livrinho bem legal que eu tive de ler pra faculdade... É curtinho, acho que você vai gostar... - Jura? Até que enfim um presente que presta!
E foi com ela até o quarto. Tirou da estante um pequeno exemplar e o entregou à menina.
- Taí. Espero que você goste.
"A Revolução dos Bichos" – G. Orwell.
- Pôxa tia! Já ouvi falar dele. Ele é ótimo! - Já ouviu falar dele? Ensinam Orwell para as crianças no Jardim? - Não... esquece... - Bom... Enfim... A propósito... Quer ir a uma palestra sobre marxismo que vai ter mês que vem lá na faculdade?
- Como assim, fumando? - Pois é, José Carlos... FUMANDO! - Nossa filha? FUMANDO? - É! Ela tava lá, na padaria, com um... um... MARLBORO NA MÃO!!! - Mas... ela só tem quatro anos! - EU SEEEEEI!!!
Enquanto isso, lá estava ela, na sala, tentando assistir ao telejornal.
- Ow! Fala mais baixo aí!
Desesperados, os pais tomaram uma decisão:
- Vamos tirar a menina daquela escola.
Dois dias depois, de uniforme vermelho e mochila devidamente revistada pela mãe, a pequena adentrava a nova escolinha.
Entrou na sala, foi apresentada aos novos coleguinhas e sentou-se em uma carteira do fundo, próxima à janela. A professora já havia sido avisada do episódio ocorrido dias antes e estava de olho naquele projeto de gente, aparentemente tão inofensivo...
Na hora do recreio, tomava o maldito leite quando, para puxar conversa com um garoto, resolveu perguntar:
- Ei! Você sabe como as crianças nascem? - Eu não... - Não sabe como você nasceu? - Minha mãe disse que foi a cegonha que trouxe eu. - Mentira. Seu pai comeu sua mãe, ela ficou grávida e você nasceu. - Meu pai comeu minha mãe? - É!
A garotinha do lado olha perplexa e pergunta:
- Os pais comem as mães? - Comem.
Outra criança se aproximou.
- Comem de verdade? - De verdade!
Em minutos, uma roda formava-se e as crianças agitavam-se ao descobrir que os pais comiam as mães para que elas nascessem.
Nesse dia, muitos progenitores ficaram perplexos ao depararem-se com as novas descobertas de seus infantes:
- E aí querida? O que é que você aprendeu hoje, conta para a mamãe. - Eu aprendi que os pais comem as mães e aí a gente nasce... - O QUÊ???
* * *
- Como foi a aula, garotão? - Foi legal. Pai, a mamãe é gostosa? - Co-como? - A mamãe é gostosa? - Por que você está me perguntando isso, filho? - É que eu descobri que para as crianças nascerem, o pai come a mãe. A mamãe é gostosa?
* * *
No dia seguinte, a professora não dava conta de tamanho alvoroço em frente a sala de aula, enquanto arrependia-se amargamente por ter escolhido o magistério.
- Que tipo de aula é essa??? - Meu filho só tem quatro anos! - Educação sexual no Jardim II? Onde já se viu!!! - Gente, eu nunca ensinei isso para as crianças! Eles só brincam, pintam desenhos e tomam leite!
Depois dessa afirmação, um dos pais teve a brilhante idéia de perguntar para o filho quem havia dito tal promiscuidade.
- Foi ela ali, ó.
Com a expressão mais inocente do mundo, respondeu:
- Eu? Que foi que eu fiz? - VOCÊ DISSE PARA O MEU FILHO QUE ELE NASCEU PORQUE EU COMI A MÃE DELE!!! - E não foi?
Uma hora depois, a mãe manobrava o carro no estacionamento da escola, preocupada por ter sido chamada com tamanha urgência. Sentada em um cantinho, com cara de tédio, lá estava ela...
- Que é que você aprontou dessa vez, menina?
Entrou na sala da Diretora.
- Sua filha está expulsa. - Como assim? - Sua filha está expulsa desta escola! - Mas... - E a senhora? Que vergonha! Onde já se viu ensinar uma coisa dessas para uma criança de quatro anos? - QUE COISA??? - A sua filha saiu espalhando para todas as outras que para que elas nascessem o pai tinha de comer a mãe!
A pobre mulher desmaiou e caiu da cadeira.
Depois de um copo d´água, pegou a pequena pelo braço, ou melhor, pela orelha, levando a menina até o carro:
- Onde é que você aprende essas coisas, hein? Você vai ter uma conversa séria com o seu pai!
Apesar de sentir a orelha queimando, a pequena ainda conseguia esboçar um sorriso, enquanto pensava:
- Precisei regredir vinte anos para conseguir ser expulsa de uma escola! HAHA!
Saiu da cama sonolenta, como fazia todos os dias. Sentia frio e bocejava de cinco em cinco segundos. Olhos semi cerrados, cabelos desgrenhados, meia furada. Entrou no banheiro, olhou-se no espelho e soltou um berro:
- AAAAAAAAAAAAAH! QUE QUE É ISSO?
A mãe apareceu segundos depois na porta:
- Filha, que aconteceu? A mamãe ia te acordar! Tá cedo ainda, meu amor... - Co-co-como assim, "meu amor"? - Vem, a mamãe te leva no colo... - Me leva no colo???
Mil novecentos e oitenta e cinco: era o ano que mostrava o calendário.
Se deu conta de que usava um pijama de ursinhos, que seu despertador era um palhaço e sua roupa de cama tinha na estampa um monte de bonecas coloridas. No quarto, não tinha mais o computador. O velho baú de brinquedos mostrava-se novo, ao lado da porta... CD´s? O que é que é isso, minha cara! Estamos em mil novecentos e oitenta e cinco!!!
- Minhas bandas preferidas nem existem ainda...
Deitou-se novamente, olhando para o teto. Cobriu metade do rosto e começou a pensar:
"Se estou em 1985, eu tenho 4 anos. Teoricamente, não sei ler nem escrever ainda. Devo estar no Jardim II e ano que vem vou para o Pré-primário I..."
Sentiu uma onda de pânico invadindo seu corpo. Lembrou-se da crueldade infantil, dos garotos terríveis que amarravam os cadarços de seu tênis bamba só para verem a pequena levando um tombo, lembrou da professora que contava historinhas chatas e...
- O que é que eu estou fazendo nesse corpo? Eu continuo pensando do mesmo jeito! Eu posso dizer que sei o futuro! Eu posso, eu posso... que merda... nunca guardei nenhum número da megasena...
A mãe apareceu na porta:
- Vem filhinha... Levanta!
E pegou a menina no colo.
- Vamos para a escolinha...
Uma hora depois, estava sendo deixada na porta de uma sala de aula com cadeiras minúsculas, trajada com o mais perfeito uniforme azul marinho de helanca, dotado de suas belas listras laterais. Custou a reconhecer os coleguinhas de sala, pensou que agora era mais uma pirralha nojenta.
Jogou a mochila em cima de uma mesa e sem querer, atingiu uma pequena garota loirinha...
- Uááááááááááhhhhhhh... - Que foi, ow! A mochila só encostou em você! Pára de chorar, sua debilóide!
As lágrimas cessaram na hora.
"Como criança é besta..."
Começou a aula. Todos cantam uma música. Depois, todos pintam um desenho. Em seguida, mais uma música. Mais um desenho. Mais uma música...
"Ai, que inferno isso!"
Hora do intervalo. Entrou em qualquer lugar na fila e com um leve ar blasè, resmungava para si mesma. A professora se aproximou:
- Venha para o seu lugar. Está tudo bem querida? - Não. Tá tudo péssimo! - Que foi? Alguém brigou com você? - Não. É que eu odeio leite. Tem café aí?
A professora arregalou os olhos.
- Te-tem... mas é para os professores... - Ai, tia! Arruma um gole para mim, vai... - Não posso... Eu... eu... nossa... você está tão diferente... - É... eu sei. Tá bom. Eu tomo essa droga de leite.
Na primeira oportunidade que teve, saiu correndo. Passou na sala de aula, pegou a mochila e conseguiu escapar pelo vão do portão enquanto o vigia tirava um cochilo. Parou dois quarteirões depois e começou a vasculhar a bolsa: lápis de cor, borracha, caderno brochura... Dinheiro!
Correu até a padaria mais próxima, esticou os pés o máximo que pôde e fez seu pedido. O português a olhava com estranheza e chegou a perguntar o que é que uma garota daquela idade fazia sozinha às quinze para as onze da manhã.
- Como assim? Que é que tem minha idade? Já sou bem grandinha já, viu!
O homem coçou a cabeça, depois o bigode e voltou a atender os outros clientes.
Meia hora depois, aparece a professora e a mãe da menina, ambas arfantes, na porta do estabelecimento...
- Graças a Deus – falou a professora. - Minha filhinhaaaaaa!!! – gritava a mãe – Por que você fugiu da escola!? - É! Por que você fugiu da escola? Se foi por causa do café, saiba que, se sua mãe autorizar, eu deixo você tomá-lo! Nada de leite, nada de leite...
A pequena acendeu um cigarro.
A professora ficou boquiaberta. A mãe, chocada!
Olhou para as duas, com um expressão de surpresa e falou:
- Que é que foi gente? É só um cigarro!
Foi então que se lembrou que tinha apenas quatro anos.
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