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August 15
Era o dia do aniversário. Não, não havia na festa nenhum enfeite de refrigerante com o Gene Simmons, Paul Stanley ou coisa parecida. "Dane-se! Nem gosto mais do Kiss mesmo...". Eram mickeys, donalds, patetas. Nas paredes, nos balões, na mesa, nos chapeuzinhos. Por toda a parte os docinhos, os salgadinhos, os refrigerantes. Por toda parte, crianças. Crianças, crianças e mais crianças. Crianças vizinhas, crianças da família, menos as crianças da escola. Não, não suportaria pisar no colégio na segunda-feira caso aquelas crianças fossem à festa. Não suportaria! A mãe, sem entender muito bem o porquê, apenas atendeu o pedido da filha.
- Tudo bem. Sem as crianças da escola então...
Cinco anos. Completava cinco anos. "Meu Deus", pensava, "ainda falta tanto tempo... tanto tempo...".
O estranho acontecimento da semana anterior não saía da sua cabeça. Não havia nenhuma explicação plausível para aquilo! Aquela mulher, o carro, a casa. A sua casa! Teriam colocado alguma coisa no leite com nescau?
- Não é possível. Minha primeira experiência com drogas acontecerá somente daqui a... a...
Fez uma rápida conta nos dedos...
- ... daqui a doze anos!
Estava submersa em pensamentos quando viu um grande pacote estendido à sua frente:
- Tó. - Hein?
A tia pegou o pacote da mão da prima gordinha e fez as vezes da pequena roliça:
- É o presente da sua prima! Ela que escolheu!
E olhou para a redonda prole e, com uma piscadinha seguida de um sorriso do tipo "ela vai adorar", falou:
- Abre!
Com sua delicadeza peculiar, rasgou todo o papel de uma vez só e retirou de dentro dele uma linda...
- ... uma linda boneca-bebê. Veja só, que beleza. - Gostou?
Pensou: "Ah, claro! Tanto quanto eu gosto de uma prisão de ventre!", mas esboçando um sorriso amarelo, limitou-se a dizer:
- Claro.
Enquanto a tia e a prima voltavam para junto dos outros parentes, olhou com tristeza para a prima gordinha. "Ah sim. Sem dúvida ela escolheu essa boneca PARA ELA. Sem dúvida que ela faria melhor uso desse brinquedo. Mas daqui a vinte anos ela terá a sua própria boneca. E de carne e osso. Assim como suas próprias panelinhas, seu próprio fogãozinho... essa, vai brincar de casinha a vida inteira..."
Voltou a pensar naquele acontecimento da semana anterior. Sentada num pufe, apoiava os cotovelos nos joelhos, olhava para o nada e vez ou outra empurrava para cima o chapeuzinho de papel que insistia em cair sobre os seus olhos. Mais uma vez, teve os pensamentos interrompidos por um novo convidado que segurava um presente:
- Oi. - Oi. - Para você. - Ah, brigada.
Ia quase colocando o presente de lado quando se lembrou que devia abrí-lo antes.
- Ah, veja só! Uma... boneca! - É, e ela fala, olha só!
E apertando um dispositivo nas costas do brinquedo, ouviu-se um "Mamãe!".
- Valeu tio.
Ia tentar voltar aos seus pensamentos mas percebeu que seria inútil tentar isso. A todo momento mais e mais convidados chegavam, o barulho das crianças começava a tornar-se insuportável e alguém teve a maldita idéia de colocar uma música do Balão Mágico para tocar...
"Quando você chega na classe Nem sabe Quanta diferença que faz E às vezes Faço que não vejo e não ligo E finjo, ser distraída demais..."
Começou a sentir um leve nó na garganta...
"Quantas vezes te desenhei Mas não consigo Ver o teu sorriso no fim Te sigo Caminhando pelo recreio Quem sabe Você tropeça em mim..."
Os olhos começaram a marejar...
"Se enamo..."
- BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAA...
Caiu em prantos. A mãe logo apareceu, ainda segurando algumas garrafas de refrigerante Taí nas mãos:
- Filha, que foi? - Ti-ti-ti-ra e-e-e-essa mú-mú-música... p-p-por f-f-favor...
A mãe fez sinal para alguém e logo a música foi substituída por um super hit do Roberto Carlos:
"Todo dia quando eu pego a estrada Quase sempre é madrugada E o meu amor aumenta mais..."
Percebeu claramente a empolgação das tias quando a música começou. Ótimo. Pelo menos, Roberto Carlos não a fazia chorar.
Veja bem, Balão Mágico é jogo sujo, golpe baixo. Aquelas músicas faziam parte da infância dela. Parte de uma vida realmente infantil e inocente. Ouvir aquela canção lhe trouxe à tona o saudosismo misturado com sua condição vã e intrusa naquele tempo, naquela época. Não conseguiria ouvir aquilo sem se emocionar nem sentir raiva de si mesma.
Passado o choro, foi levada a contragosto para o meio da molecada. Era impressionante quão estúpidas eram aquelas brincadeiras. Os meninos simplesmente se divertiam batendo uns nos outros. As meninas, renegadas na brincadeira brutal, ficavam apenas olhando e vez ou outra, desferindo chutes ao vento, na inútil tentativa de acertar algum menino.
Mais uma vez os tios jogavam truco e ela sentiu uma imensa vontade de ir para lá. Por fim, decidiu andar pelo quintal a esmo, sem rumo. Ouviu sussurros. Foi olhar atrás do muro: a tia mais nova, aquela do livro e da palestra sobre Marx, ela mesma, lá, em amassos semi-obscenos com o namorado da faculdade.
Ficou observando a cena com o peculiar olhar cruel das crianças, reflexo de uma mente cuja arquitetura do mal já trabalhava arduamente pensando em como poderia tirar proveito daquilo. Deu um espirro.
- AAAAAAAAATCHÔU!
A tia virou-se, um tanto descabelada e ofegante, mão no peito devido ao susto. O rapaz, apenas olhava a menina, atônito. Enquanto arrumava a blusa e os cabelos, a tia disse, quase calmamente:
- Olha só quem está aqui... - Ô tia, o vô sabe que você tá aqui? - Aqui na sua casa? Claro que sabe! - Não. Não tô falando sobre você estar aqui em casa! Tô falando de você estar nessa pegação aí com o... o...
O rapaz se adiantou e disse:
- Clóvis. - Clóvis! Que belo nome hein! HAHAHAHAHAHA!!! Enfim Clóvis, você conhece o meu avô, sabe que ele é um tanto... como posso dizer... rígido, não?
O rapaz olhou com espanto para a menina, depois para a namorada como que perguntando "como ela consegue falar assim?" e novamente olhou para a menina, dizendo:
- É. Eu sei. - Pois então Clóvis. Pior que meu vô, são meus tios, irmãos da minha tia aí, sabia? - Não... quer dizer... sei, mas... é... onde você quer chegar com isso? - Eu quero chegar no seguinte: um maço de cigarros e uma garrafa de vodca. Pode ser da padaria.
Minutos depois, uma garrafa de vodca era escondida sob o registro de água, junto com um maço de Marlboro, ambos devidamente embrulhados em jornal, escondidos categoricamente.
- Obrigada, pessoal! Podem voltar a se pegar. Volto para chamá-los quando eu for cortar o bolo. Quer dizer... eu não, a minha mãe, pois pra ela eu ainda não sei manejar uma faca de cozinha! HAHAHAHAHA!!!
Saiu. E o tal do Clóvis olhou para a tia da menina e disse:
- Tem certeza que o aniversário dela é de cinco anos?
* * *
Foi para perto do registro d´água. Acendeu um cigarro. Tomou um belo gole de vodca...
- Ah... que coisa maravilhosa... melhor do que isso, só sexo... Mas sexo... deixe-me ver... argh! Daqui a treze anos... Vejamos... Primeiro porre daqui a... hum... não, esse não conta... eu já tô bebendo desde já! HAHAHAHAHA... Tá bom. Outra coisa. Primeiro computador... Daqui a catorze anos... Ah, meu computador... Que saudade dele... Dirigir... hum... treze anos também... E aquele menino... Aquele, bom de cama... Nossa! Daqui a dezoito anos! Cruzes! Parece que todas as boas coisas da minha vida vão acontecer só daqui a uma década... e aquele...
Foi quando irrompeu dos devaneios por uma voz infantil, uma voz da qual nunca esqueceu:
- O que é isso que você tá fazendo?
Era ele.
- Ah não... eu já tinha me esquecido disto!
ELE!
- Droga!
O primeiro amor da sua vida. Aquele garoto... Ah, aquele maldito garoto!
Dentro do carro, ia sacolejando. Ouvia uns murmúrios, mas nada que conseguisse identificar claramente. O saco em sua cabeça tinha um cheiro conhecido, mas não se atentou muito a isso, porque – no fundo – estava morrendo de medo. Confabulava as mais diversas conspirações a respeito daquilo que lhe parecia um rapto.
No carro, ora parecia estar acompanhada de apenas uma pessoa, ora por duas... por várias vezes achou que o carro era dirigido pelo rádio, tamanha era a falta de destreza do motorista na direção. Sabia que a pessoa que guiava o automóvel era bastante atarantada, pois no caminho ouviu buzinas, sentiu as curvas mal feitas sem contar nas diversas vezes que percebeu ter o veículo "morrido" durante a trajetória.
Quando o carro parou por definitivo, sentiu que era levada para dentro de algum lugar - provavelmente uma casa - uma vez que não subiu escadas nem sentiu entrar em qualquer tipo de elevador. Por fim, teve o saco retirado da sua cabeça e enxergou, apontada por um vulto, apenas uma forte luz à sua frente.
Com medo, começou a arquitetar a sua desculpa espetacular: O que uma criança de quatro anos faria numa situação dessas??? Ei! Eu já tive quatro anos! O que eu fazia quando ficava com medo? Hum... eu quebrava os brinquedos, chutava a porta... não, não posso fazer isso... O que uma criança normal faria em uma situação como essa??? O QUÊ, MEU DEUS???
E a voz do vulto irrompeu o silêncio:
- Oi.
- BUAAAAAAAAAAAAAAA!!! EU QUERO A MINHA MÃE!
Sim! Essa é uma excelente reação para uma criança de quatro anos!
- Pára com esse choro fingido.
- GURP. Quem é você?
- ...
- Eu quero ir embora.
- Mas já?
- É!
- Então vai.
Foi então que ela percebeu que estava pura e simplesmente sentada em um banquinho de madeira. Nem havia se dado conta de que podia ter saído dali a qualquer instante.
- Onde é que é a porta mesmo? Sabe como é... tá um pouco escuro aqui, sabe? E já que você foi tão legal me deixando sair assim, numa boa, eu pensei que...
- Ali.
E sem pensar duas vezes, saiu correndo. Correu uns vinte metros, sem nem olhar para trás. Até que parou. Ofegante, virou as costas. E quando olhou, quase que não pôde acreditar:
Havia saído da própria casa.
- ... e todo mundo vai ter um e... - Mas como funciona? - Ah, eu não sei assim, cientificamente como funciona... Mas ele emite um sinal, tem todo um sistema que capta e transmite... É meio complexo... Vão existir uns que tocam música, tiram fotos, uma beleza... Em shows, por exemplo, você acha que o povo vai continuar acendendo isqueirinho igual no Rock In Rio do ano passado? Que nada! Você verá em estádios a maravilha da telefonia celular... - Nossa... mas isso é incrível! Que mais que esse aparelho faz? - Serve cafezinho e te dá tapa na bunda! HAHAHAHAHAHAHAHA!
Lá estava ela, em meio ao grupo dos garotos superdotados do núcleo de Ciências, interessados na mais alta tecnologia, que, na época, se resumia a um processador de 256 megas do tamanho de uma geladeira. Lá estava ela, contando sobre como seria a vida após a revolução dos telefones celulares.
Tudo parecia um tanto utópico para aqueles meninos de quinze anos que já estavam prestes a iniciar a pós graduação. Ela não era daquela turma, ficava na verdade com as crianças de dez anos que já estavam prestes a terminar o segundo grau. Realmente não compreendia o que fazia naquela escola, já que não tinha um Q.I. superior e muitas daquelas crianças sabiam fazer mais contas do que qualquer Físico Quântico. Mas era divertido ficar contando sobre como seria a vida no século 21 para todos aqueles aficionados por ciência. Eles ficavam maravilhados, ao mesmo tempo que duvidavam de muitas histórias.
- Ah, duvido! - Tô falando! Esses processadores do tamanho de um armário vão caber num chaveirinho, ó... Desse tamaninho! Chama "pen drive". Bem legal viu!
Do meio do grupo, surge um garoto que grita:
- MENTIROSA! Você é uma baita mentirosa! - Eu? - É isso mesmo! - Vai à merda, seu gordinho desgraçado! Quem é você pra me chamar de mentirosa? - Fica aí, achando que veio do futuro, enganando esses pobres doentes por ciência! - Olha aqui, ô rosquinha de banana... Eu não estou mentindo! Tanto não estou que posso te garantir que o Herzog foi assassinado, a morte de Tancredo Neves foi um golpe e esse bigodudo do Sarney vai cair! VAI CAIR, BICHO! Esse velho dura só até o final dessa década e... - E o que é que isso tem a ver com ciência? - Eu não faço a menor idéia, mas isso é só pra você ver que eu não estou mentindo, seu rolha de poço dos infernos!
E lá foi-se o gordinho pra cima dela...
- Sua anã maldita! - Seu gordo viado! - Piolhenta! - Proxeneta! - Meu pai é militar! Vou contar tudo isso que você falou pra ele! - A ditadura já acabou seu boçal! Acabou ano passado! - Você que pensa!
E rolavam os dois no chão quando um magrelo de óculos gritou pela inspetora. Enquanto isso, um dos superdotados da área de Humanas perguntava para a loirinha magrela de sete anos:
- O que é um "proxeneta"? Parece ser um bom xingamento, você não acha? - Vamos procurar no dicionário, esse parece ser um excelente verbete!
Naquele mesmo dia, enquanto saía da escola, foi colocada num carro por uma mulher desconhecida. Quando se deu conta de quem poderia ser aquela gente e de onde estava prestes a chegar, só teve um pensamento:
- Gordinho filho da puta!
Mas insisto em lembrar que já era 1986.
- Sua filha precisa de uma escola especial.
- Como assim? Ela é doente?
- Olha, eu não sei ainda se ela é doente, talvez seja necessário eu fazer algumas experiências com ela, dessas que eu tenho tentado com aqueles ramsters ali...
- EXPERIÊNCIAS???
Antes do pai voltar para o consultório, as duas haviam conversado e fumado durante toda a sessão:
- Onde você aprendeu a fumar?
- Ah, uma vez eu estava saindo do colégio, parei num boteco e comprei um maço de Hollywood Mentolado.
- Sei...
Acendeu o cigarro e olhou para a terapeuta, que a observava estupefata. Lembrou-se de que não podia contar aquelas coisas, ainda era uma criança de quatro anos.
- Brincadeira.
A terapeuta ficou por meia hora ouvindo as considerações da menina. Descobriu que ela odiava aquela novela Roque Santeiro. Segundo a pequena, "uma trama cheia de gente caricata e com trilha sonora horrível":
- Chega de ficar ouvindo "tudo azul, Adão e Eva no paraíso"!
- Eu ainda acho "Dona" bem pior...
- Olha, a Regina Duarte não sabe o mal que fez para si aceitando esse papel de Viúva Porcina. Essa personagem vai perseguí-la pelo resto da vida, escuta o que eu tô te falando.
- Ai, eu também acho aquilo um horror...
Depois, descobriu que Freddy Mercury era gay:
- Como assim... "gay"?
- Pois é... Bichona total! Ah vai... Nenhum homem que se preze usa calça coladinha... Se bem que estamos nos anos 80, isso não é lá muito válido...
- Desculpe, como assim?
- Ah, esquece!
Por fim, descobriu que os Titãs revolucionariam o rock daquele ano com o lançamento de um de seus melhores álbuns:
- Você vai ver! Nunca mais nada, eu disse NADA dos Titãs se comparará ao "Cabeça Dinossauro"!
- É mesmo?
- "Bichos Escrotos" vai virar hino! E "Polícia" será entoada até o século 21, incansavelmente!
- Que coisa, não?
- Pois é... E pensar que daqui a vinte anos eles serão toooooodos uns velhos babões fazendo música de elevador...
- Eles são um tanto revoltados não?
- Ih, tudo fachada! Eles vão ficar velhos e vão gravar um monte de MPB vagabunda! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
E assim, menina e terapeuta passaram quarenta minutos conversando, até que fosse a hora dos pais voltarem ao consultório.
- EXPERIÊNCIAS???
- HAHAHAHAHA... Brincadeirinha! Cadê seu senso de humor? Sua filha tem uma idade mental dez vezes maior que a sua, você deveria estar orgulhoso!
- Isso só pode ser piada...
Já era 1986 na verdade.
E havia um aniversário pela frente. Cinco aninhos, que bonitinha!
A mãe pensava na festa:
- Olha só, filha: que é que você acha da gente fazer uma festa com o Mickey? - Eu não gosto do Mickey, mãe. - E do Pato Donald? Do Pateta? Olha a Minnie... - Mãe, eu odeio a Disney. O Mickey é o maior símbolo da dominação estadounidense.
A mãe arregalou os olhos. Há duas semanas reinava a tranqüilidade na casa, desde o incidente do natal. A menina estava calma, comportada e assistia aos desenhos animados como qualquer criança da sua idade. Chegou a pensar que aqueles surtos da filha fossem apenas um crise temporária, mas agora tinha a certeza que não.
- Filha, eu não gosto quando você fala desse jeito... - Por quê? - PORQUE VOCÊ É UMA CRIANÇA, ORAS! - Ah é... - Então... Minnie ou Mickey? - Kiss. - Como? - Eu quero uma festa de aniversário com coisas do Kiss! - K-K-Kiss!? A banda daquele linguarudo? - É! - Mas filha... Onde eu vou achar chapeuzinho de papelão e enfeite de refrigerante com o desenho do Kiss?
Naquela mesma semana, os pais levaram a menina a uma terapeuta. Mulher de trinta e poucos anos que usava grandes óculos e um coque no cabelo. Tinha um olhar blasè praticamente tatuado no rosto. Apagava um cigarro quando entraram no consultório.
Os pais conversavam com a psicóloga enquanto a menina ficava em um pequeno sofá vermelho, perto de uma estante repleta de livros médicos. Sentada ali, com as pernas balançando, sentiu pela primeira vez um saudosismo da infância: o de recostar no sofá e ainda assim poder balançar os pés, sem tocar no chão, como fazia agora.
Deu um impulso no corpo e levantou. Viu na mesinha logo à sua frente, um exemplar da revista Capricho. Na capa, uma menina de catorze ou quinze anos exibia grandes polainas, acompanhada de uma daquelas calças de ginástica, finalizando o figurino com uma blusa amarela de bolinhas, horrível...
- Ô época maldita! Por que eu tive de voltar justamente nos anos 80?
Começou a refletir sobre isso. Até então, nunca havia parado para se perguntar o porquê de estar em 1986. Como aquilo havia acontecido, o motivo, a razão. Agora percebia que simplesmente aceitou a condição de voltar ao passado sem sequer questioná-la e... E agora? Ficou com medo de descobrir o motivo.
Ainda olhando para a revista, viu estampada duas chamadas: "Saiba tudo sobre Kevin Bacon" e "Cindy Lauper Chocante". Não bastasse aquela maldita "We Are The World" tocando dia e noite nas rádios, ainda era obrigada a conviver com aquelas gírias bizarras.
- E pensar que daqui a vinte anos isso tudo vai fazer um sucesso...
A mãe, vez ou outra, procurava pela menina apenas com o olhar. A pequena, sentada no chão e folheando a revista dava à mãe a sensação de ser uma criança extremamente dócil e inofensiva. Esboçou um leve sorriso, até ver a filha levantando a revista e mostrando uma foto do George Michael:
- Mãe, sabia que ele é bicha? Mas ele só vai assumir daqui uns quinze anos!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
O sorriso logo se esvaiu e a mãe percebeu que a filha continuava a mesma. Quer dizer, não a mesma. Mas a.... a.... a...
- Meu Deus! Quem é minha filha?
O pai se aproxima da menina:
- Querida, vou levar a sua mãe para tomar uma água com açúcar. Você vai ficar um pouquinho aqui e vai conversar com a doutora, tudo bem?
Os dois saem e a menina volta-se para a psicóloga. Fica ali, impávida, inerte e absolutamente hipnotizada pela imagem daquela mulher. Alguns segundos se passam, até que a terapeuta quebra o silêncio:
- Tá pensativa, é? - Pois é... Estava aqui pensando que, daqui a uns vinte anos, esses seus óculos serão o que há de mais "féxion" nesse mundo, sabia?
E por falar em fashion, lembrou-se da Gisele Bündchen: "Uma criança medíocre igualzinha a mim! Porra nenhuma nessa vida!".
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH!!!
A doutora observava aquela cena e já começava a fazer seus pré-julgamentos a respeito da pequena. A menina percebeu que aquela risada histérica não seria muito favorável, uma vez que parecia uma criança descontrolada. Deu uma tossida e voltou a se concentrar nos grandes óculos da psicóloga, que perguntou:
- Você quer um doce? - Doce? Ah não! Mas olha, se você tiver um cigarro, eu aceito...
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